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09 março 2017

Síntese de dias crepusculares




Eu sinto tanto a sua falta
E sinto muito por você não sentir o mesmo
Sinto necessidade de olhar nos seus olhos e fazer essa confissão, mas me calo, você me calou
Sinto que me perdi enquanto te perdia e esse vazio pesa, só não mais que a dor
Sinto como se tivesse tirado tudo de mim, tudo de melhor, de mais importante, mais forte e mais bonito quando você se retirou, no exato momento
Sinto falta de fé
Falta de esperança
Falta de ar
Falta de você
Em algumas raras horas eu consigo não pensar nisso, consigo rir e fingir que vai ficar tudo bem, me conformo
Nas horas outras, a maioria esmagadora de horas, é como se fosse agora.
É tão insuportável pensar em você, lembrar de você e é tão pior me esforçar a esquecer
Fico repassando atitudes minhas, gestos meus, palavras tuas, mistérios teus e não vejo nenhum indício de motivos concretos, não acho nenhum sinal do porquê se foi
Me olho no espelho e também não vejo nenhum pelo qual deveria ter ficado, deveria ter lutado e insistido
Por isso não lutou, não tentou, não ficou, não olhou. Adeus.
Em contrapartida, tenho todas as razões para te detestar, para me motivar a te apagar da minha vida e pensamentos, mas não consigo
Aqui no chão está tão frio, tão cômodo, é tão mais fácil continuar parada e se dar por vencida
Estou vencida
Você venceu
Para você tudo sempre foi um jogo, as pessoas suas peças para atingir objetivos e eu não passei disso: objeto
Descartável, violável, desrespeitável, desconsiderável, inutilizável pela sua doença vil
E como bom campeão, saiu oponente do campo de batalha, sem remorsos, sem amarras, sem demora
Fez o que deveria ter feito, fez o que quis e faria tudo de novo repetidas vezes, sem nenhum vestígio de arrependimento
Não demorou a erguer seu troféu e propagar toda sua glória majestosa, a se permitir comemorar e sorrir e viver bem, muito bem enquanto mais uma alma jazia dilacerada aos seus pés
Sangue nas mãos e coração em paz, assim que você faz
Ganha, ganha sempre
Me derrotou em tão pouco tempo
E eu que sempre me culpei por tudo, ainda acho que é por falhas minhas que hoje minguou só

05 janeiro 2017

2. Rara, a menina Pan


| Por Claudia Tremblay |

Estava eu, na tranquilidade dos meus pensamentos na medida que 3 crianças brincando ao meu lado permitiam, até que uma delas me questionou e a tranquilidade se esvaiu. 

"Isa, você é criança?" 

A questão é que ela não me perguntou quantos anos eu tinha e tirou suas próprias conclusões, não reparou na discrepância da minha figura de observadora e a deles juntos gritando e pulando, ou ainda minhas feições ou minha altura, em comparação a ela mesma (ainda que eu seja baixinha). A questão é que ela não pensou em nenhuma dica óbvia para a resolução da sua dúvida, para mim tão absurda. Isso tudo porque a menina que tem o nome Rara, queria uma companheira de brincadeira, não saber em que ano eu nasci ou se já posso dirigir. 

Sou criança o suficiente para sorrir com os sorrisos deles, para me arriscar a acompanhar o pique dos jogos, para ter uma conversa divertida, ainda que ilógica com eles e por que não, para brincar !?

Sou adulta o suficiente para mediar a intensidade das peripécias, auxiliar em alguma dificuldade de locomoção ou ainda vigiar por segurança. 

Edna St. Vicent Millay certa vez disse que "A infância não vai do nascimento até certa idade e a certa altura a criança já está crescida [...] A infância é o reino onde ninguém morre."

Essa citação me veio a mente assim que recebi a pergunta de Rara, mas fiquei sem ação, não a respondi nada, só pensei muito em várias possíveis respostas. Naquele momento ela pode ter até se sentido ignorada, mas foi a responsável por uma das perguntas mais marcantes, embora simples, da minha vida, tanto que guardo-a com carinho até hoje e anseio um dia poder respondê-la. Provavelmente ela não se lembrará de um dia ter me feito tal pergunta, provavelmente não nos veremos mais, porém quero respondê-la, nem que seja como autorreflexão ou compartilhando com vocês. 

Sempre acreditei que "criança", "adolescente", "adulto" e "idoso" transcende o número de velas apagadas durante a vida, exige critérios bem mais elaborados como: postura, maturidade, bom senso, discernimento, consciência, responsabilidade e talvez o mais importante seja o auto conhecimento, o auto reconhecimento. 

Então, que saibamos nos reconhecer e nos permitir, afinal, parafraseando Rubem Alves, o que seria da vida sem longas e silenciosas metamorfoses?

Muito prazer em conhecê-la. Seja feliz!